Quem vive de imagem conhece o ciclo: outubro com quatro casamentos e a conta cheia; fevereiro com a agenda vazia e a mesma conta de luz. O problema raramente é ganhar pouco. É que o dinheiro do negócio e o seu se misturam, e o mês bom paga o mês ruim só na teoria.
O método que mais se espalhou entre criativos lá fora parte de uma ideia simples, popularizada pelo livro Profit First, de Mike Michalowicz: separe primeiro, gaste depois. Em vez de pagar tudo e ver o que sobra, cada real que entra é dividido em caixas, cada uma com uma função.
Passo 1: duas contas, nunca uma
- Conta da empresa (de preferência no CNPJ — veja quando virar MEI): tudo o que o cliente paga entra aqui.
- Conta pessoal: só recebe o seu salário, uma ou duas vezes por mês.
Pagar o mercado com o cartão da empresa ou o equipamento com o cartão pessoal destrói qualquer controle.
Passo 2: as caixas
Na conta da empresa, crie sub-contas ou "cofrinhos" (quase todo banco digital tem). Quando um pagamento entrar, divida na hora:
| Caixa | Para quê | Ponto de partida |
|---|---|---|
| Impostos | DAS, impostos da nota, contador | 6% a 10% |
| Equipamento | Troca e manutenção de câmera, lente, computador | 10% |
| Reserva | Meses fracos e imprevistos | 10% a 15% |
| Custos fixos | Softwares, internet, marketing, seguro | conforme a sua realidade |
| Seu salário (pró-labore) | O que vai para a conta pessoal | o restante |
Os percentuais são um começo: ajuste depois de três meses olhando os números reais.
Passo 3: salário fixo, mesmo com mês irregular
Em vez de levar para casa tudo o que entrou no mês, defina um pró-labore fixo e transfira sempre no mesmo dia. No mês forte, o que passar do salário fica na caixa de reserva. No mês fraco, a reserva completa o salário. É o que transforma renda de freelancer em renda previsível.
Como definir o valor: some o faturamento dos últimos 12 meses, tire os impostos e os custos fixos, divida por 12 e comece com uns 80% desse número. Sobrando ao fim do ano, você aumenta.
Passo 4: a reserva da sazonalidade
Casamento e formatura concentram receita em alguns meses. Monte uma reserva de 3 a 6 meses de custos fixos + pró-labore. Até lá, a regra é: nada de câmera nova com o dinheiro do mês bom.
Passo 5: o sinal, o parcelado e a data de entrada
Muitos trabalhos são pagos com sinal na contratação e o restante perto do evento. Para não se enganar:
- Anote quando cada parcela vai entrar, não só o valor total do contrato.
- Não gaste o sinal antes do trabalho acontecer: se houver cancelamento, parte dele pode precisar ser devolvida, conforme o contrato.
O que acompanhar todo mês (15 minutos)
- Faturamento do mês e dos últimos 12 meses (atenção ao limite do MEI).
- Quanto entrou em cada caixa.
- Quanto está a receber nos próximos 90 dias.
- Custo por trabalho: deslocamento, assistente, impressão. É o que diz se o seu preço ainda fecha a conta.
Erros comuns
- Comprar equipamento no mês bom sem olhar a reserva.
- Ver o dinheiro na conta e achar que é lucro: parte é imposto, parte é trabalho que ainda vai acontecer.
- Não ter salário fixo e viver de "tirar quando precisa".
- Deixar o controle para dezembro. Quinze minutos por mês evitam o susto.
Resumo rápido
- Conta da empresa e conta pessoal separadas.
- Divida cada entrada em caixas: impostos, equipamento, reserva, custos fixos e salário.
- Pró-labore fixo, no mesmo dia, mesmo em mês irregular.
- Reserva de 3 a 6 meses para a sazonalidade.
- Controle de 15 minutos por mês: faturamento, caixas, a receber e custo por trabalho.